QUALIF. CAN-2019: GUINÉ-BISSAU PERTO DE REPETIR “MILAGRE” PELAS MÃOS DE CANDÉ

CAN 2019: GUINÉ-BISSAU PERTO DE REPETIR “MILAGRE” PELAS MÃOS DE CANDÉ
A seleção guineense de futebol está cada vez mais perto da CAN 2019. A equipa, que não dispõe de recursos, faz “milagres” pelas mãos do selecionador Baciro Candé – figura aclamada por uns e contestada por outros.

Baciro Candé, de 51 anos de idade, é um dos poucos treinadores guineenses com o quarto nível académico de treinador e uma carreira profissional de sucesso, cheia de grandes conquistas. Candé entrou para a história do futebol guineense como primeiro selecionador a apurar o país para a presença inédita no Campeonato Africano das Nações de Futebol (CAN) de 2017, disputado no Gabão, e está a quatro pontos de repetir a segunda qualificação consecutiva dos Djurtus para a fase final do CAN 2019.

Natural de Farim, norte da Guiné-Bissau, ainda jovem tentou a sorte dentro das quatro linhas como jogador de futebol no país, tendo passado também por Cabo Verde. Em busca de realizar o seu maior sonho, decidiu partir para Portugal e caiu nas mãos do antigo treinador inglês, o célebre Jimmy Hagan, que na altura orientava o Estoril de Praia. Candé sempre foi um modesto jogador em campo, apesar de ainda ter passado pelo Estrela de Amadora, Portimonense e outros clubes portugueses.

“Só sei treinar”

Mas foi fora do retângulo de jogo, no banco de treinador, que Candé se deu melhor. Em 1988, decidiu regressar à terra natal para comandar a equipa nortenha da Guiné-Bissau, o Desportivo de Farim. No ano da estreia, conquistou a Taça da Guiné e garantiu o segundo lugar do campeonato nacional de futebol.

No início da década de 90, Baciro Candé iniciou uma nova experiência nas equipas da capital do país, tendo treinado a União Desportiva Internacional de Bissau (UDIB), a Estrela Negra, que é o clube das Forças Armadas Repúblicas do Povo (FARP) e a equipa do Bairro de Ajuda. Ainda orientou o Bula FC. Mas foi no Sporting de Bissau que Candé começou a fazer história no mundo do futebol guineense.

“Foi no Sporting que fui mais feliz. Assumi o comando do Sporting quando o Benfica tinha mais cinco títulos do que o Sporting. Conquistei 10 títulos, cinco consecutivos e cinco alternados. Ganhei sete taças e super taças da Guiné-Bissau”, relata.

Primeira experiência na seleção

O número de títulos projetou Candé diretamente para o banco da seleção nacional de futebol da Guiné-Bissau, em 2002, pela primeira vez. Na altura, o país competia mais para a então Taça Amílcar, uma competição da sub-região oeste africana que, entretanto, já não existe. Os seus sete anos à frente dos Djurtus terminariam com a traumática eliminatória da Guiné-Bissau diante de Cabo Verde, em Bissau, nas meias-finais da Taça. Candé foi obrigado a abandonar a seleção nacional de futebol e fazer as malas para Portugal para prosseguir com os estudos e aperfeiçoar a carreira na Associação Desportiva de Oeiras, revela o próprio em entrevista à DW África.

“Quando cheguei a Portugal decidi começar do nada, na base. Na Associação Desportiva de Oeiras passei pelos Infantis, Juvenis, Juniores e Séniores. Nos Juniores, fiz um recorde de 23 jogos e 23 vitórias. Acabei o campeonato sem nenhuma derrota ou empate. Ganhei todos os jogos”.

O eco do sucesso fez-se sentir em Bissau. Em 2014, assinou um contrato com o Sporting Clube da Guiné-Bissau, uma das maiores equipas de futebol do país. No mesmo ano ficou em segundo lugar do campeonato e na época desportiva 2015/2016, quando o campeonato nacional de futebol foi interrompido por falta de verbas financeiras, Candé foi convidado, em fevereiro de 2016, pela Federação de Futebol guineense para salvar a equipa nacional da crise de resultados na fase de qualificação para o Campeonato Africano das Nações de 2017.

Candé fez “milagres” com Djurtus

Candé, coadjuvado por Romão dos Santos, antigo treinador do Benfica de Bissau, assumiu a orquestra nacional, quando estava em último lugar no grupo E de apuramento para a CAN 2017 com a Zâmbia, Quénia e RDCongo.

“Tínhamos um ponto. A minha estreia foi contra o Quénia em Bissau, ganhamos 1-0. Na segunda mão fomos para lá ganhar também por 1-0 e fizemos 6 pontos em dois jogos. Recebemos a Zâmbia em Bissau, naquela partida infernal, e ganhamos 3-2, fizemos 10 pontos e garantimos a primeira presença da Guiné-Bissau na fase final de um CAN, quando faltava ainda uma jornada por disputar”.

A seleção guineense, com Candé a liderar a equipa técnica, tem feito todo esse percurso sem as condições mínimas exigidas para o futebol profissional. Muita das vezes são os jogadores que tiram do bolso para pagar as despesas e já dormiram, por diversas vezes, nos aeroportos por falta de recursos. Dizia-se em Bissau, que “os Djurtus ganhavam muito por mérito e sacrifício dos jogadores”. Há várias denúncias de corrupção e de desorganização contra a Federação de Futebol, cuja direção é apontada como principal responsável pela situação precária da equipa nacional.

Na sua histórica participação na fase final do Campeonato Africano das Nações, a Guiné-Bissau somou um empate, no jogo inaugural, contra o anfitrião Gabão e duas derrotas com os Camarões (que viria a ser a equipa campeã) e o Burkina Faso, que ficou em quarto lugar. Na altura, problemas nos balneários, críticas e um ambiente tenso afetou e muito a prestação da seleção. A polémica entre Baciro Candé e alguns jogadores mais experientes, que ajudaram a qualificar a equipa, pesou bastante no Gabão, segundo noticiava a imprensa desportiva guineense. Pouco mais de um ano depois da sua primeira qualificação para o CAN, a seleção guineense depende apenas de si para estar novamente no certame a realizar-se de junho a junho do próximo ano.

Guiné-Bissau quase apurada

E, neste sábado (17.11), Baciro Candé, a sua equipa técnica e os jogadores poderão repetir novamente a proeza de 2016 quando a seleção se qualificou para a edição que o Gabão organizou. Para isto, a Guiné-Bissau deverá vencer a Namíbia e Moçambique empatar com a Zâmbia, nos jogos referentes à quinta jornada do grupo K de qualificação para CAN 2019, que terá lugar nos Camarões.

“Continuamos em primeiro lugar com 7 pontos, temos este jogo extremamente importante contra a Namíbia e se conseguirmos 3 pontos estaremos com um pé na próxima edição do CAN, nos Camarões. A Guiné-Bissau estará qualificada em primeiro lugar”, acredita.

No último jogo da seleção guineense de futebol, realizado em Bissau, em que venceu a Zâmbia por 2-1, mal soou o apito final, Baciro Candé caiu inanimado e teve que ser evacuado para Lisboa por se sentir bastante mal, devido à emoção do jogo. Esteve sob cuidados médicos durante 15 dias em Portugal e agora carrega o sonho nacional às costas, rumo à maior montra do futebol africano.

Chegar ao Mundial é a meta

Nesta entrevista à DW África, Baciro Candé confessa que o seu maior sonho é garantir a presença da Guiné-Bissau na fase final do Mundial de Futebol, para mostrar ao mundo que o país tem potencial e é viável.

Os comentadores desportivos em Bissau consideram Baciro Candé como uma figura muito criticada pela forma como gere o balneário, pela maneira como faz as suas convocatórias e como monta o seu sistema tático, mas que no final apresenta resultados positivos. “Odiado por uns e amado por uns tantos outros”.

No meio de amor e ódio, Baciro Candé é considerado pela crítica como o mais histórico selecionador de futebol da Guiné-Bissau e, consequentemente, o melhor em termos de resultados.

Fonte: DW
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